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Finada Uma canção de beijos desesperados rola no iPod. Meia luz no apartamento. Ela, deitada no sofá, olha a foto mais feliz: lábios em contato acompanhando a canção. A água ameaça pingar da torneira da cozinha, mas o que desliza é a mão pelo rosto. O cantor da música dá razão aos sentimentos da moça. O tom aumenta e um falsete desesperado rasga o seu tímpano sofrido. O olho não segura e permite um deslize. A lágrima encontra a almofada, que está molhada desde o verão passado . A sequência de acordes termina e ela volta ao zero, coloca no repeat e se deixa envolver pela atmosfera subversivamente caótica da canção. Levanta-se como quem quisesse se deitar novamente, lança um olhar de desprezo para a foto e grita ao primeiro corte. A canção está tocando pela terceira vez. Os joelhos encontram o chão e uma surdez mórbida a invade por alguns segundos. Ela sente deliciosamente o que pensou ser uma lâmina. O objeto fica encaixado enquanto o fluído ameaça escorrer. Desliza. Lisa. Desfaz. De...
O casal Na calmaria das coisas um caos manifestado. Difícil relatar os acontecimentos, queria relaxar em nosso apartamento e comentar os fatos do dia-a-dia. Colocar Tori Amos na vitrola e divagar o afeto. Mas sempre vem o contrário, as contas a pagar, o carro para lavar, o cachorro para alimentar, a poeira dos móveis para tirar, a louça para guardar, o guarda-roupa para arrumar. Está ficando difícil. Quando foi a última vez em que fomos ao cinema? Aquele do Woody Allen ainda  era um lançamento. Quando foi a última vez em que abrimos uma boa garrafa de uísque? Aquela que compramos já está completando 12 anos. Acho que agora é a hora. Não era isso que eu imaginava. Na adolescência, eu pensava que conforme fossemos crescendo os tempos seriam mais proveitosos. Estão sendo criminosos. Crime por não aproveitarmos o salário para gastar com cerveja, crime por não podermos gozar a rotina: crime de falta de tempo. Eu queria ser um outro tipo de criminoso, um hiperbólico das vontades pr...
Estamos sendo vigiados. Estão conseguindo fazer uma ditadura maquiada. Os esquerdistas serão expostos contra muros de fuzilamentos. O Partido dos Trabalhadores foi dizimado e não vai se recuperar. Os outros sofrerão com o poder dos homens. Os Policiais Militares não vão aceitar críticas, sobretudo de artistas, e vão adentrar teatros como era antigamente. Um filme como Tropa de Elite nunca chegará aos cinemas nacionais. Aliás, o último com crítica política será Aquarius. Os de mais projetos serão engavetados. Quando chegamos em um momento em que a "maior instituição" deste país relacionada às lutas sociais, que eram os estudantes, renega o protesto, é porque se perdeu a luta e será preciso repensar a briga por direitos. E se você não está preocupado com os próximos 20 anos e somente com o hoje, saiba que de repente o seu agora é dizimado com pólvora diante de seus olhos neste momento. Não se esqueça, estamos sendo vigiados.

Indireta

Quando o sentimento explode, ocorre tudo. Sangue na parede, frases em catarse, hiperbólicas canastrices, dramas cavalares e falsidades não ensaiadas. Pode acontecer um teatro que chamam de ridículo ou incertezas em falas vagas. Mas é preciso ouvir sempre os dois lados.  Também há o universo umbigo, a centralidade da razão que nem certa é possível e tudo aquilo que se completa em achismos. Existe sim a falação de merda, mas até dela se extrai conteúdos. E é isso. lsH

Nosso Sangrento Amor

Eu faço seu ouvido sangrar Com as falácias profanadas Enquanto eu tenho o fálico Em vermelho no madrugar. Eu posto coisas em sua mente. Você diz que eu desvirtuo suas verdades. E eu respondo que deve ser por isso Que continua comigo. Mas no fim a gente ri, E aquilo que nos move É o sentimento que alimenta Mais um dia que promove. lsH
Às vezes precisamos de doses de loucura, de noites insones, de silêncio em meio a tanta porcaria que nos invade os olhos e ouvidos. É preciso sentir essa maluquice que bebemos e arrotamos em vida, porque nada levamos a não ser cada impressão digital na pele, cada história compartilhada, cada beijo alucinadamente dado. É necessário saber se ouvir, mesmo com tanto remédio controlado na mente.  É obrigatório saber amar desenfreadamente, sem dosar as consequências, mergulhando de  piruetas em pedras que nem sabemos se de fato são duras. É preciso sentimento real e muita coragem para estufar o peito e dizer tranquilamente: eu te amo. Às vezes não é preciso nem dizer com palavras, apenas transmitir em gestos simples, leves, carinhosos, generosos e deliciosos. Não é afoito sentir vergonha. É lindo quando se pode encontrar alguém e olhar nos olhos e repassar docemente o sentimento através da pupila, da íris, das pálpebras, do piscar, do brilhar. E, para tanto, é sim necessário uma boa...
Aguenta minhas bobagens, minhas asneiras, minhas tolices. Além, suporta os meus dedos, a minha boca e o roçar dos meus lábios. Empresta-me para filtrar a minha voz estriquinada, tratorizante e verbolatente. É desenhada exatamente à face. Nem mais, nem menos. A cantada breguíssima, como o profanador, foi sincera. Curti o riso, compartilhei o humor. Tem um algo a mais. Possui a característica certa. Arrepia-se. Não sei do que, não sei de que, não sei por quê. De desgraça, talvez. De aguentar. Enxergo errado. Sou míope. Meio surdo, também. A melhor orelha.