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Bem-vinda

Desde 2005 que não saia com você, eu acho. Voltar a te ver foi ótimo. Adoro quando tenho casos contigo, mesmo que esporádicos. Sempre é bom escutar sua voz, suas lamúrias, seus dedos ao piano. Gosto quando se faz de triste. Eu me entrego aos acontecimentos. A última vez que nos encontramos, confesso que não estava na melhor maré. Talvez eu tenha sido indelicado ou distante, apesar de presente. De toda a maneira, não foi ruim. Eu que não estava bom. Mas agora você retorna com um vigor salutar, levantando as minhas pálpebras e esquentando a minha virilha. O passar dos anos só lhe fez bem. Seu rosto continua o mesmo, quiça, um pouco chupado nas bochechas. Seu olhar, esse sim, igualzinho quando te conheci, como se fosse uma máquina extraordinária. E agora você reaparece em minha vida de maneira mais direta, porém, não menos consistente e deliciosa. Fiona Apple, bem-vinda ao meu tímpano. 

Dois Beijinhos

Um daqui, outro lá Um olhar acolá. O cigarro, companhia. O espelho, a testemunha. Um beijo, sim, dois, talvez. Mas o enxergar registra E a imagem, sinistra. Ao ver do outro, claro. Uma risada mais alta A luz automática se acende E pretende flagrar O que flagrado já foi Para depois se calar. Agora aqui, depois, sei lá O cigarro continua A imagem torna nua E a verdade do clichê Continua sendo crua.
Aguenta minhas bobagens, minhas asneiras, minhas tolices. Além, suporta os meus dedos, a minha boca e o roçar dos meus lábios. Empresta-me para filtrar a minha voz estriquinada, tratorizante e verbolatente. É desenhada exatamente à face. Nem mais, nem menos. A cantada breguíssima, como o profanador, foi sincera. Curti o riso, compartilhei o humor.  Tem um algo a mais. Possui a característica certa. Arrepia-se. Não sei do que, não sei de que, não sei por quê. De desgraça, talvez. De aguentar. Enxergo errado. Sou míope. Meio surdo, também.  A melhor orelha. 

Laputa

Emprega em minha prega O seu lamento diário. Fraco argumento para despregá-la Mesmo sendo eu Uma puta sem documento. O meu amor está em guerra E o seu olho me fere em fera A sua guitarra me distorce Mas tenho o ouvido ferido. Reclama afoito o coito Não deixando mais do que um troco. Desconversa em público verso Para depois jogar o inverso Que não entendo anexo. O seu amor não é pagável Inviável sentimento apresentado Sentado me quer nua Naquela nuance absurda e muda.
Algum exercício para tirar a mente desse marasmo. Algum tempo que valha para tirar esse relógio do estorvo. Algum fruto que sirva de melhor alimento do que a maça oferecida pela serpente. Alguma metáfora que contribua para a sobrevivência diária. Alguma canção que exploda com gratidão o meu tímpano. Algum político que além de promessas ofereça a prática. Algum conteúdo que nos encha de satisfação ... e nos faça caminhar o mesmo trilho. Algum problema que nos desencaminhe para o lado errado. Algum acerto que se mostre errado para provar que o correto às vezes é um grande saco incômodo. Algum soco no rosto que ajude a melhorar essa cara. Algum provérbio que seja citado erroneamente e influencie todos os estudantes retardados. Algum administrador que provoque o caos em uma grande empresa. Algum capitalismo para ressaltar que o modelo socialista não deu certo. Algum socialismo que apresente ao capitalismo como se deve seguir o momento econômico. Alguma frase confusa que faça pensar. Alg...
A alma está meio grunge. Sei lá se acordou assim. Não lembro. O dia anterior foi de destruição, quando decretei o meu corpo em estado de calamidade pública. Agora, neste momento, se encontra fumando um cigarro, dedilhando uma guitarra desafinada e grunhidos milimetricamente desajeitados. O dia clareia. Um pássaro pousa na fiação elétrica enquanto o sol parece dizer, solitariamente: mais um dia vagabundo está surgindo. Aproveito o embalo e pego minha camisa xadrez de flanela que estava no criado mudo. Ela fede a maconha, incenso de Flor de Lótus e falsificação de Hugo Boss. Como não lembro se dormi, até que estou contente. Deixo de lado a guitarra e sigo até a cozinha preparar um café. Acendo o fogão com um Zippo que tem um adesivo do Pato Donald. Estranhamente, parece que ele está sorrindo para mim enquanto derramo pó de café no azulejo cinza. A água já fervendo e ouço: Bom dia! Caralho, tinha mais alguém neste apartamento? Eu trouxe alguém? Dormi com quem? Por que não lembro...
Eu quero ser o Mefisto para te satanizar. Quero beber o seu chorume para me santificar. Eu quero ser o seu Verlaine a disparar E vê-lo como Rimbaud aos poucos se fechar. Eu quero ser o Bucowski para te marginalizar. Quero ser a Julieta com o veneno a tomar. Eu quero ser o Catulo para em obra te eternizar. Quero como Polifemo em prados a chorar. Eu quero como Castela o seu corpo velar. Eu quero como Garcilaso em poemas te amar. Quero ser o São Francisco de Borja a abandonar Não assumindo a corte para se apaixonar. Eu quero me dar um tiro na têmpora Como Werther quando com Carlota Em nenhum momento pensou em se casar. Quero ser como Ana Karenina a abandonar O próprio filho para um dia se matar. Eu quero ser como Sandokan a lutar Pela pérola de Labuan a se entregar. Quero como Lancelot a se sacrificar Traindo o seu mentor para se casar. Quero como Robin Hood a raptar Para um dia com Lady Marian copular. Eu quero ser a Beatriz a resgatar ...