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Tudo passa, mas a falta fica

Doce manhã banhada pelo astro-rei. As dores do tímpano agora estão amenas. Serenas, no entanto, são as situações mastigadas a cada dia. Mas hoje o primeiro mandamento é acordar feliz. Um café degustado na imprecisão do tempo que não fica estabelecido. Um velho jornal sendo lido como se fosse atual. Comidas sem sabores na geladeira. Uma planta morta no canto da sala. O rádio estragado. O gato implorando por comida descente. Disseram que a viuvez não se ensina, se convive, contudo, difícil é aprender os meadros da situação. Talvez fosse mais fácil ensinar um cachorro assoviar New York New York no mesmo tom do Sinatra. Contudo, a ordem suprema é acordar feliz. O chão está estúpido. Estupidamente repleto de pó, Nescau, bosta de felino, mijo, papel de bala, migalhas de bolacha, pedaço de pão mofado, jornais e revistas. O cheiro do apartamento não lembra mais a infância, está mais parecido com o odor do Armagedon. Como é um dia para ser feliz, nada melhor do que começar uma bela faxina no re...

Poligamia

Estou praticando muito a poligamia. Não tenho culpa, encontro muitas pessoas interessantes. Quando percebo, o amor já aconteceu. Às vezes é apenas uma transa, em outras, é paixão. Nego a culpa e não considero traição, de maneira alguma. Podem me chamar de puto, galinha, cretino e demais adjetivos peçonhentos. O meu veneno é mais em baixo, confesso. O fato é que tal ato me inspira no dia-a-dia, seja através de escritos, doses homeopáticas de gratidão, na minha musicalidade, no jeito de ver as coisas, as pessoas e as leituras. Não é de boa índole, mas aconselho a poligamia a qual me refiro.Ontem a noite a suruba foi geral. Várias posições, encaixes, diálogos e sussuros. Gemidos também, muitos. Culpa da Kim Deal. Ela é fogo. Foi a primeira. Quando percebi, os outros integrantes do Pixies estavam juntos. Quando terminamos, fui para cama com o Sonic Youth e, para apimentar o papo cabeça clitoriano (!), convidamos Nietzsche. Na realidade, queríamos o casal estranho Sartre e Simone, mas os do...
Entenda beleza, eu ainda prefiro o conteúdo. Sua graça me distrai, mas procuro manter a calma. Confesso que já me perdi em seu torso nu. Na sua pele morena. Nos seus cabelos escuros e nos seus olhos castanhos. São tão invencíveis, pedaços sublimes de pecado exacerbado. Em você, eu me perco, reviro o acaso, me torno poeta. Em você, me transformo em plebeu, obedeço os critérios, pratico adultério e procuro um consubstancial. Porém, entenda, ainda primo pelo teor. Já solicitei tantas vezes, quase nunca fui ouvido. Não adianta, você sempre consegue me seduzir. Eu sou fraco, eu sou carne, eu sou ser, abstrato, confuso, continuado. Quando adentro, fico idiota, caricato: estereótipo de capa de revista. Então, como não agüento, eu me entrego. Mas ainda falta o conteúdo. Portanto, entenda beleza, você está me fazendo perder os valores. Fazia tempo que eu não me entregava em uma batalha. Você continua ganhando. Todas. Estou jogando meus princípios no vaso sanitário, nos tocos de cigarros, nas ta...

A Troca

Trilhas insólitas do destino Vejo-me perdido Mas abro o sentimento E percebo o bom caminho. Não acredito hoje no carinho O meu lado mais feliz Eu sempre fiz sozinho Porém, um dia, bem insípido, Iracundo acordei a vida E larguei em um caderno A minha lassidão passiva. Descrevi aos poucos a situação Encarei a tal condição. O pouco dinheiro no bolso Fez-me perlustrar Confesso que me precipitei O pedido me deixou ainda Muito mais confuso E aceitei normalmente O meu adjetivo característico: A boa e velha solidão. Você nunca quis mostrar Em uma assinatura o amor Eu achei que fosse charme Mas era pura sinceridade Agora falso eu trilho Com verdade, contudo, brilho O incomum consenso Que não entendem feliz O seu intenso safismo.
Eu daria tudo para abrir os olhos e conseguir enxergar o relógio. Mas não consigo. Eu queria acordar e enxergar o seu rosto pela manhã. Mas não enxergo. A nitidez se faz presente apenas em sonhos, improvisos banais do meu cotidiano. Às vezes imagino o ponteiro maior marcando o horário correto, anunciando um encontro outrora firmado. Porém, a distância impede. Então volto a rabiscar velhos poemas decorados em um pedaço de papel de uma agenda do ano de 1999. Bons tempos. Não lembro ao certo como começava a canção, recordo que o refrão era entoado sempre quando nos encontrávamos. "O passado é seguro / Por isso estamos aqui / 1999 / Vai ser só mais um ano / Um dia na vida uma gota no oceano / Se eu pedisse / Pra você duvidar do que eu digo / Por onde você começaria / Nós todos temos medo / E o meu pode me cegar". Realmente cegou e hoje, não consigo perceber, contudo, o retrato continua no mesmo lugar. As lembranças, também. Os dilemas, além. Mas repito, ainda: "o passado é...

De repente (Leonardo Handa e Larissa Mazaloti)

De repente, a gente percebe o sopro que é a vida. De repente, sem planejar, a gente dá uma volta Entre os mortos e pensa na história guardada Em cada palmo debaixo da terra. De repente, "eu me vi com medo de viver Comigo apenas e com o mundo". De repente, eu te amo um pouco mais. De repente, a gente percebe que somos feitos de sonhos. De repente o acaso nos apresenta os deletérios. De repente somos apenas o repente. De repente somos um corpo, afinal, recheio de gente. De repente, em cada extremidade, um dedo. De repente, utilizamos para tocar, e lembrar que precisamos sentir. De repente é amor, então, sintamos ainda mais. De repente, água ardente pra curar a dor. De repente, água ardente pra esquentar o amor. De repente somos eu e você.
Minha miopia querida, não me deixe mesmo enxergar. Ver o quê? Não há nada bom para ser apreciado. O mundo jet set é tosco. Todos são certos em exageros. Não existe mais ninguém com coragem. Tudo é um pacote muito bem pensado. Ousadia não há. A plastificação é o ditante. São os mesmos sorrisos, os mesmos gostos, os mesmos consensos e os mesmos conselhos. Nas ruas, as mesmas conversas. Nas esquinas, os mesmos sapatos. Nas prateleiras, as mesmas películas. Nos jornais, as mesmas notícias. Nos restaurantes, as mesmas comidas, os mesmos sabores. Nos olhos, as mesmas cores. Nada novo. Nada realmente extraordinário. Ninguém mais explode em imaginação, em criatividade. Um modus operandi desgostoso, nojento e supérfluo. Melhor nem ver.