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A música

A garoa fina dá o tempero. Na sala, em um velho aparelho de som, uma linda canção embala o ninar das horas. Os olhos se fecham e ele pensa naquela situação que chamam de amor. Sua cabeça ainda arde memórias frias, mas a música ajuda como se fosse nicotina para um fumante. O coração lembrou traições e pulsou um gole de sangue mais intenso pelo corpo. A dissonante adentrou o tímpano e conquistou alívio. Ele queria tudo de novo, no entanto, sem a dose do sofrer. Hoje se encontra  em outro plano e quer viver mais emoções ao lado de um fruto doce, que veio como salvação. Mas, a perfeição ainda não pode se realizar, pois não a teve completa. Ele continua pensativo, confortavelmente abraçando o seu edredon, seu companheiro mais fiel. E a canção continua a acalmar sua ansiedade de pegar o telefone e realizar uma cagada. Mas a mente funciona mais do que a emoção.

Os nossos pés

Numa simples frase, que me acompanha como carma, pensei: um dia haverá de passar. Vai desfilar pela passarela da memória, iluminada por um holofote, até ele se apagar. Ou entrará como um trem em um túnel e lá irá ficar. Quem sabe será como aquele disco que riscou e que nunca mais tocará. Ou como aquele velho a navegar, que no mar entrou e com seu barco naufragou. Porém, já foram tantas as tentativas do querer, daquele de se borrar a mente, simplesmente para parecer uma obra  de arte abstrata. Mas sempre quando passo o pincel, acabo desenhando um realismo. E ele é fantástico. Não se trata de algo bom, eu sei. Hoje lembrei de quando assistíamos a um filme na sala e deitávamos espremidos no sofá. Antes da película começar, eu ficava olhando para os nossos pés, fazendo comparativos e analisando como eles eram tão diferentes. Na simples frase não mencionada no primeiro parágrafo deste lamentar, relembrei daqueles momentos, quando eu sempre refletia antes de me deitar junto a você: n...

Lua

O instante Da carência Na lágrima Que escorre Do céu Lembrando Do que passou E um dia voltou Mas o presente É vivo E acabou. A solidão No instante E a carência Está. Na lágrima Que escorreu E no dia seguinte Morreu. l.s.H
Você se lembra o dia em que nos encontramos pela primeira vez? Provavelmente eu estava bêbado. Com certeza estava. Mas eu recordo a minha primeira frase. Na realidade, foi uma pergunta: tem fogo? A noite estava fria e em frente àquela boate indie, dividimos o cigarro. Cigarro mentolado, que eu odeio. Era o que tinha. Só o aturei por causa da conversa, que estava agradável e porque você usava uma camiseta do Bikini Kill. Claro que eu recordo. Sim, você estava bebaço. Enrolava  cada sílaba, que eu completava com "arrams", "tá certo" e "concordo contigo". Eu também odiava cigarros mentolados. Não foi aquela noite que você vomitou na fila para sair? Depois de ter beijado um menino que a Roberta queria? Foi sim, tenho certeza, pois eu estava sóbrio. Verdade, tenho um fragmento de lembrança, mas acho que foi. Cara, que DJ ruim tocou aquele dia. Cheguei cedo com a minha galera e estava tocando The Killers. Porra, era uma boate indie. Eu esperava algo meio...

Me Deixo

Hoje vejo o mundo Como uma Mavica Com problema no foco. Tudo está leitoso E o céu borrado De um azul jocoso. As luzes dos carros São vaga-lumes amassados Que perdem a cada metro O sentido de viver. Pela estrada, não vejo E quando percebo Um Volvo eu encontro E não há socorrer.  Agora vejo o vermelho Que escorre até o queixo Vou fechando os olhos E assim me deixo. 
Creio veemente que certas pessoas confundem o significado da auto-estima. Alguns a utilizam como sinônimo de “rei na barriga”, de donos da verdade absoluta. E, claro, esses indivíduos não possuem a capacidade de dizerem: desculpe, errei. Suas respostas são agressivas e suas atitudes peculiares (para não dizer algo ofensivo). Tamanha é a dificuldade de assumir as consequências que preferem apelar para a defesa desenfreada, ressaltando suas qualidades, que podem ou não ser duvi dosas, e partem para a famosa ignorância, essa vizinha da maldade (sim, a frase é daquele poeta). Com certeza você conhece alguém que é repleto de esperança quanto ao futuro, que é admirado por uma parcela do eleitorado, porém, carrega consigo uma arrogância disfarçada de ingenuidade. Não é auto-estima, não. É mecanismo de defesa. No fundo, lá impregnado no peito, internamente, essa pessoa canta aquela música do Karnak, cujo verso diz: “eu era convencido, agora não sou não, porque cheguei à perfeição”.

Repugnante Tormento

Remete uma canção Na dor mais antiga Da eterna paixão Pelo pó que levantou. A lágrima absurda Ecoa surda no berro Da repugnante tradição. Há tiros na escuridão E silêncio na infância Que insiste em se perder No tempo da conclusão. Sopra no barro um remorso Causado pelo tempo, Socorre ao álcool Um pouco mais de lamento. A lágrima absurda Ecoa surda no grito De repugnante tormento. lsH