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Pense que ainda existe amor. Está na esquina, no copo do bar. Ali debaixo do nariz, do chafariz. Nos deslizes da mão do jogador. Pense que ainda há. Permanece em Bagdá No coração do homem bomba No olhar das pessoas de lá. Pense que ainda existe amor No carro que só pega no tranco Em sua pele morena do sol Nas ruas da cidade de Pato Branco. Pense que ainda existe Consiste em observar Perto daqui, longe do mar. No simples ato de se abraçar.  

O disco

Sábado. O horário de verão não existe mais, mas Clarice revive memórias quentes de um retorno que não aconteceu. Em frente ao espelho do banheiro, ela ia dizendo adeus a certas viagens cerebrais. Apesar de estar chapada, arrancava a sobrancelha delicadamente. Não sentia aquela dorzinha. Acabara de voltar de mais uma noite vadia, daquelas que você esperava alguma surpresa, mas nenhum malandro tentara algo mais afoito. Todos eram gays. Se bem que ela perdera a virgindade com um. Continuou a sua operação em frente ao espelho, com a pele toda vermelha e os pelinhos da sobrancelha espalhados pela pia de mármore branco. Se sentia como uma personagem do Chico Buarque. A chuva trazia um alívio por causa do mormaço, do cerebral e da estação. Após 15 minutos seguiu até o som 3 em 1 e puxou um LP do Allman Brothers. Desistiu. Recordou-se que Matias, seu ex, que gostava muito da banda. Jogou o disco pela janela. Feliz de Cristiano, que fora acertado pelo álbum, que tinha sido jogado do primeiro ...

Calendário

Gira, gira, gira linda. Rodopia ao som do silêncio e esvazia a mente tentando um suplício. O travar dos dentes acontece ao mesmo tempo que o travar do tropeço. E o seu girar lindo fica estático no tempo. No espaço. No critério. Na ocasião. Na vida. O calor esfria e ela pensa no vazio do corredor. Tira um samba dolorido e acompanha com vocalizes os deslizes do amor narrados pelo cantor. Observa a foto antiga em sua estante e, por um instante, se sente uma vitoriosa. Vai até o banheiro e em frente ao espelho borra o batom em seu lábio, joga uma maquiagem mal desenhada e sorri. Fecha os olhos e fica a se imaginar em um baile colegial, quando era a preferida para se dançar. Caminha até o calendário da cozinha e risca o dia 21 de outubro. Mais um aniversário ela visualiza, sozinha.

Um Beijo Russo

Do lábio a sua vodca, vagabunda. Do meu, o bafo do pós-trabalho. Do encontro, fluido de isqueiro Enquanto sobe o nevoeiro. Do olhar, o estrabismo alcoólico. E dos dedos, a fumaça traiçoeira. Da vivência o derramar da água Que ardente amorteceu a queda. Do vermelho a boca imunda E da cintura um trago mais abaixo. Dos dentes a mordida forte E o sangue a escorrer embriagado.

Bagagens

As malas estão prontas e deixadas perto da porta Não tenha medo do que virá nas próximas horas. Eu sei que temos contradições, mas deixe estar Melhor aproveitar do que ficar com carícia torta. Deixo minha concepção de sentimento em seu retrato Não tenho medo do que virá e lhe digo que saberei suportar. Procuro em outro tempo o consolo enquanto desejo seu abraço Mas as malas estão aí e só você sabe para onde levá-las. Só lhe peço para voltar os seus olhos a si Não se preocupe com o que vai acontecer Viva a intensidade se puder, sem se arrepender do viver A saudade permanecerá caso o que tenha falado seja verdadeiro. Meu dedilhado ao violão não está triste Pois vale qualquer coisa, menos a mentira E como sei que não houve admiro a preocupação Só que despedidas sempre hão de surgir. lsH  
  Eu quero aquele verso torto, todo fodido, rasgado e arregaçado. Aquele que vibra a vida com uma ardência nada categórica, muito alegórica, hiperbólica e cheia de cólera. Algo que fale mal, deliciosamente. Um jorro na cara de lambuzar os olhos lacrimejados. Quero uma canção arrancada do coração, sangrenta, como uma balada que estupra o peito. Venha-me, solte-me e cuspa-me aquela frase gritada, igual uma puta num coito interrompido. Quero o tremular das pernas, o balançar das cadeiras, a quebra da lombar no berro em si bemol. Desejo a gostosura das falácias inconsequentes, da porra quente de uma estúpida masturbação. Também quero o ódio para alimentar meu corpo em fúria, só para que a vazão da marginalidade não me faça esquecer o quanto é bom se sentir assim: em pulso, em nervosismo, em pele, em carne e em cerebelo. Quero extirpar cada silaba com gostosura de framboesa, como uma criança retardada que grita de birra em um supermercado, constrangendo seus pais e seus irmãos. Eu quero...

Simples assim

Você não escolheu o seu corpo. Você era um espermatozoide não pensante e sem emoções, viajou, encontrou o óvulo, fecundou e putz grilis, que merda. Herdou as condições físicas dos seus pais, aceite e um beijo. Mas, você pode modificá-lo, lógico, seja com atividades físicas, boa ou má alimentação, com sedentarismo, pilates, sentado no sofá comendo Ruffles e tomando Fanta ou correndo dos crushs. São dois polos: o corpo perfeito daquele seu amigo do Instagram que você dá likes ou a condição da vida, por preguiça, que te leva a acumular gordura, triglicerídeos e colesterol ruim. De toda a maneira, a nossa relação com o organismo parece que nunca está a contento. Invejo as pessoas bem resolvidas com suas carnes. Desde quando o homem resolveu ser bípede, existe uma relação difícil com a estrutura física. Certos casos, inclusive, podem ser patológicos, como apontou o neurologista Oliver Sacks. Em determinadas situações, as pessoas nem reconhecem seus próprios braços. Fisicamente é uma coisa, ...