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Carta ao Starman

Caro David, infelizmente, não estou de Bowie. Saber que você pegou sua nave e partiu para longe, me deixou os olhos suando. A primeira vez que te vi, foi numa das várias incursões cinematográficas as quais viajou. Ao te admirar no filme Labirinto, de 1986, aos cinco anos de idade percebi que ali nascia um messias para mim. Fiquei tão fascinado com a sua presença, que rebolei muito ao som de Underground. Não entendia sequer uma palavra sua, mas o que importava era o ritmo. E isso o senhor tinha de sobra. Algumas pessoas não vieram ao mundo a passeio. Definitivamente, você está nessa categoria. Aliás, nem sei se era um humano. Eu acho melhor chamá-lo de entidade, de força sobrenatural ou de hipérbole extraterrena. E lá da Blackstar os seus olhos de cores diferentes nos observam, tenho certeza. Sinto uma pena tremenda de quem nunca ouviu falar do senhor. Sem a sua presença, o universo musical da Terra perdeu muito da sua graça. Vários insistiram em rotulá-lo como o Camal...
Já não sei mais o que pensar, nem em como agir. O fato é que para os próximos relacionamentos amorosos, se existirem, não saberei o que sentir. Não gostaria de me tornar uma daquelas pessoas que dizem: nunca mais me apaixonarei de novo. Tão clichê isso. Mas se for pensar pelo viés do se machucar, acredito que não sobreviverei a outra desilusão. Posso dizer que tive três namoros. O primeiro, doentio. O segundo, ciumento e confuso. O terceiro, doentio, ciumento, confuso e devastador. De todos, o último, com certeza, é o que deixou feridas homéricas. Boa parcela da culpa é minha, mas percebo que faltou mais delicadeza e entendimento por parte do outro. E agora? Quero que se foda. É isso. Fim.

Síndrome

Quem sente síndrome do pânico sabe o quão terrível é ter os sintomas durante o trabalho. E trabalhar em rádio com essa ansiedade toda é o desespero retratado nos olhos. Nos últimos dois dias têm sido assim. Levanto bem, apresento com meus colegas o jornal matinal, repasso as notícias, faço comentários e vou me preparando para os textos do restante da manhã, além de algumas edições de áudio. Nesse momento, tudo começa a rodar. A concentração me escapa, fico mexendo toda hora na sobrancelha, como se ela fosse um botão que reiniciasse o meu cérebro. Ponho os fones de ouvido para aumentar minha percepção do que estou fazendo e sai tudo no automático. Odeio essa sensação. Tudo parece que sairá do controle. Tenho vontade de sair correndo, me bater contra uma parede, de berrar vários nomes e de arrancar minha espinha dorsal com um facão. Desde 2008 é assim.  Começou quando sobrevivi a um relacionamento complicado. A primeira vez que ela visitou a minha cabeça, eu achei que estava enlou...

O amor é caos

O seu lado do guarda-roupa ainda está vazio. Encaro a porta todos os dias, ao acordar. O sentimento? Não sei explicar. A intenção de deixá-lo assim, menos ainda. Minhas coisas continuam atoladas nos espaços que me foram cabidos e designados. Tudo meio embolado, conforme a vida nesse momento. Mesmo assim, sei onde estão todos os objetos e roupas. Ou seja, há uma organização no caos. Aqueles bilhetinhos de amor outrora colados no móvel não se encontram mais. Confesso que foram rasgados. Arrependo-me de tal ato. Tinham mensagens ali que eram lindas: escritas em momentos de sinceridade original. Talvez o imediatismo de apagar as memórias me levou a covardemente tomar a atitude do desapego. Porém, me pego a cada duas horas a relembrar aquelas frases que jorravam amor. Estou dormindo do outro lado da cama que, aliás, não é a mesma. Tive que me desfazer da antiga, pois não conseguia mais repousar nela. Sentia uma angústia terrível ao me deitar e perceber que você não estava ao ...
Certa manhã acordei de um sonho intranquilo. Na realidade, foi bem tranquilo, ao contrário do amigo Kafka. Na minha viagem mental, você estava lá, segurando uma placa escrita "eu te amo", correndo feito um bobo, brincando de esconde-esconde comigo. E, quando você falou a frase ali acima, eu simplesmente chorei feito uma criança repleta de esperança por dias melhores.  Aconteceu hoje. Ao abrir meu horóscopo, a leitura me deu um tapa. Por quê? Porque dizia isso: a lua em Leão recebe ótimos aspectos de Urano deixando você emocionalmente agitado. O momento envolve volta a um passado agradável e vontade de agilizar seu retorno. Faça o que seu coração pede e ouça sua intuição que está bastante aguçada.  Ah, como eu queria...

A tal da linha da vida

Algumas pessoas não possuem a ambição de viver muito. Elas são criticadas por isso. A expectativa de vida cresceu bastante nos últimos anos. Mas e a qualidade, basta? A dúvida repousa na mente como um boing em chamas entre montanhas localizadas no remoto do mundo.  Dias atrás, numa mesa de bar, onde coisas interessantes acontecem, uma amiga metida a "ciganices" estava lendo as mãos dos meus companheiros de cerveja. Ao som de um rock pré-histórico, ela ia desvelando cada qual com uma elegância e uma sinceridade extrema. Quando chegou a minha vez, pedi um tempo para tragar um cigarro.  No meu momento solitário com a fumaça, do lado de fora do pub, fiquei observando três meninas. Pela tez, deviam ter entre 16 e 17 anos. Não se vestiam como patricinhas, faziam mais o tipo "mulheres-antenadas-cult", com os braços expostos, revelando minúsculas tatuagens, provavelmente nunca apresentadas aos seus pais.  Na minha terceira baforada de cigarro, uma delas me pediu o is...

Meio Infinito

Eu quero dançar nessa ventania Mas quero um bom par. No meu jeito quadrado Quero depois um beijar. Dois selos em paralelos Que podem se encontrar Depende do ritmo Interfere no artifício. O destino só é conclusão Quando a gente quer Por isso leve a esperança Sempre pra onde puder.  Menina, segure a minha mão Arraste o seu salto, Abrace essa luz fraca E lá do alto Façamos um bailar Meio desesperado, Meio aflito, Meio infinito.  Léo Handa - 05 de outubro, 2015.