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Apenas sentia

Era de alegria que a face se abria em cinza. Era de sorriso que a boca sem dentes vazava a consideração. Era de felicidade que os olhos úmidos ameaçavam derrubar lágrimas.

A visão constante de desastre evaporava no momento que a notícia foi alvejada com tiros de prata e pólvora. Foi no seco que a bala engolida desceu. A ânsia veio em seguida, mas bastou um cálice de gasolina para o vômito não surgir.

Era de alívio que a morte apareceu com seu costumeiro ar de tranqüilidade. Difícil imaginar qual a real sensação de falecer, sobretudo quando um ferro penetra na carne ainda viva. Qual a dor? Pior que parto? Pior que transplante de rim? Pior que a perda de um amor ativo em pleno pôr-do-sol litorâneo... Ou melhor que rúcula com agrião ao molho tártaro de culinária equivocada?

As questões surgiram no exato e inoportuno doce de levar um tiro. Era de alegria, pois não precisaria mais dormir na lápide dura que ele chamava de calçada. Era sem dentes a boca cultivada a sobras, a lixo industrializado por seres muito mais limpos do que ele. E era de felicidade porque não agüentava mais ser escória de uma civilização que nada pôde e nada fez por ele. Era de rua que se vazia vivo. E foi de rua o tiro perdido por uma armada que apontava na cabeça de um empresário recém assaltado. A bala que tinha como endereço a cabeça do empresário, acabou na cabeça do mendigo.

Logo após, ele não questionou mais qual o tipo de dor que sentia. Apenas sentia.

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