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Marginal


Meu cinzeiro está cheio até a borda. Cada cinza ali jogada é uma lembrança assassinada. O período é de reciclagem mental, limpeza a mais para armazenar outras memórias. Tantas outras já foram perdidas em copos de café com vodca. Somente os períodos felizes ficaram gravados, todos bem registrados ao som de Devendra Banhart, como se fossem um filme em pré-produção.
Aos poucos um novo roteiro surge, com fúria, música, sujeira e prosa, repleto de grotescos erros gramaticais. Por vezes a dicção também se perde, surgindo sons interessantes de pura irresponsabilidade. Novamente o lado marginal brota das entranhas um licor de saudades. Eu sei muito bem que a sua presença não quer bebê-lo. Eu insisto. Você aceita.
A noite invade o recinto vazio do meu quarto. A janela ainda está aberta. Acesso fácil aos insetos que se sentem atraídos pela luz estrambótica. Somente os distraídos caem na armadilha traiçoeira do intento. A artimanha planejada conquista o eleitorado. Não demoro e destilo o veneno guardado em meus dentes. Meu ferrão artificial é a arma menos mortal. Ainda tenhos nas palavras o mortífero golpe de piedade. Como é doce a sensação do vencer, do conquistar, do estraçalhar.
O tempo passa e todos os atos vão se transformando em cinzas. Todas acumuladas devidamente no cinzeiro, até que ele fique cheio, quase derramando pela borda. Após, as lembranças são jogadas pelo ralo. E volta o círculo vicioso hiperbólico, redundante e presunçoso. É pura maldade e marginalidade. Assim o sorriso se abre na boca rachada de pura malícia.

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