Simplesmente deslizar os dedos pelo teclado, sem objetivo, sem razão, apenas acompanhando a música que me faz lembrar um dos sentimentos mais fortes já vividos. Mais do que o amor. O exagero percorre os olhos e alcança os tímpanos nos agudos indecifráveis da sua voz. A cada nota o coração acelera. A cada ruído o pulso desperta. Sim, estive morto em outras horas. Agora volto para reencontrar aquilo que deixei em uma caixa de sapato. Meu velho Converse é o companheiro da empreitada. Não se trata de outra memória adolescente, por mais que várias sejam boas demais para serem vividas novamente. Agora o verso é outro. A cadência do meu samba explode na pele os sentidos ordinários, os sentidos claustrofóbicos, os sentidos fodidos, os sentidos exarcebados, os sentidos de vazão. São frutos novos que aos poucos serão devorados pela alma renovada. Eu quero destrinchar com os dentes aquilo que os pedaços sentimentais proporcionaram outrora. O caos aumentará a gana niilista que sentirei no momento em que desabotoar a veia da ligação. O cabaço será arrancado com os dedos. O pulmão nunca sentirá tamanha a força. Terá que reaprender a respirar. Quero que a cabeça exploda em energia solística de acordo com as guitarras de Paranoid Android, para depois descansar em paz sobre a linha de piano da Tori Amos. A musicalidade penetrará os sete buracos. Após as lágrimas de alegria o constante plano de recriação surgirá das unhas um amarelo de fumaça causado pelo cigarro. A loucura do não entendimento terá sentido quando os olhos se fecharem. O céu brigadeiro aparecerá em outro plano metafísico que nem Galileu imaginou. O plástico em mutação codificará um natural belo e pacífico. E no surto psicótico uma beleza irá comprovar o doce que é simplesmente estar vivo.
Viajo dentro de uma canção, acompanhado de uma boa xícara de café. Relembro uma infância. Tempos difíceis, mas divertidos. O coração na boca ao pular de um muro alto em uma caixa de areia. Tardes vadias em uma madeireira abandonada. Um quase tétano pego em uma lâmina. Um amigo lá para dar a mão. Início de noite em um pé de ameixa. O horário de verão era sempre comemorado com a empolgação cavalar. Um rádio a pilha. Uma sintonia qualquer. Um pôr-do-sol no interior. Os joelhos sujos, as canelas arranhadas. O All Star acabado. A conga destroçada. O riacho sem peixe, as pedras com rostos humanos, os pássaros soltos. O cachorro companheiro, as piadinhas inocentes, as revistas de catequese. As aulas cabuladas, os dias de futsal, as camisetas brancas limpas com Omo. O truque da moeda, a brincadeira do copo, o medo de ser pego. As meninas de Azaléia, os vestidos rodados, os ensaios na casa mal-assombrada. As noites de sábado. Videogame com Baconzitos. As conversas de madrugada, os sonhos adiado...