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Amster dá

_Observo diretamente nos olhos. Algumas encaram tristes os seus destinos. Outras devem imaginar o que o dinheiro pode comprar. Elas podem ser mães. Podem ter namorados. Mas na moldura onde estão expostas, ninguém procura pensar sobre isso.
Suas peles são claras. Seus rebolados são cansados. A pouca veste vermelha de uma está desbotada. A maquiagem, borrada. E mesmo assim, se entrega. Que música estaria ouvindo mentalmente? Teria vontade de sair daquela moldura? O rapaz ao lado está de pica dura. O velho com semelhança de Sean Connery está desfalecendo. Meu amigo não tira a retina de uma morena. Eu apenas penso. Até me emociono. Não sei se foi o vinho barato ou a cannabis do coffee. De certa maneira o ambiente é poético. Imagino-me recitando Baudelaire no ouvido de uma. Na outra, um Verlaine. "No velho parque deserto e gelado / Duas formas passaram há bocado / Com os olhos mortos e os lábios moles / Mal se ouvem, a custo, as suas vozes. / No velho parque deserto e gelado / Dois espectros evocaram o passado: - Recordas-te do nosso êxtase antigo? - Por que razão acha que ainda consigo? Ela entenderia o que eu estaria dizendo? Imagino que sim. Muitas coisas das putas, o vale é a sabedoria.



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Contato ausente Em pele quente Que arde dor De passado beijo Desfeito antes Recriado oposto Delicado gosto. Mentira exposta Na boca torta De beleza oca E fala morta Que acabou O amor incerto De brigas boas, Acertos maus, Vontades outras, Saudades poucas. Ainda há bem Outrora ruim Um desejo em mim De tragar o fim Engolindo gim.

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Viajo dentro de uma canção, acompanhado de uma boa xícara de café. Relembro uma infância. Tempos difíceis, mas divertidos. O coração na boca ao pular de um muro alto em uma caixa de areia. Tardes vadias em uma madeireira abandonada. Um quase tétano pego em uma lâmina. Um amigo lá para dar a mão. Início de noite em um pé de ameixa. O horário de verão era sempre comemorado com a empolgação cavalar. Um rádio a pilha. Uma sintonia qualquer. Um pôr-do-sol no interior. Os joelhos sujos, as canelas arranhadas. O All Star acabado. A conga destroçada. O riacho sem peixe, as pedras com rostos humanos, os pássaros soltos. O cachorro companheiro, as piadinhas inocentes, as revistas de catequese. As aulas cabuladas, os dias de futsal, as camisetas brancas limpas com Omo. O truque da moeda, a brincadeira do copo, o medo de ser pego. As meninas de Azaléia, os vestidos rodados, os ensaios na casa mal-assombrada. As noites de sábado. Videogame com Baconzitos. As conversas de madrugada, os sonhos adiado...