Para cumprimentar, não precisa fazer a chuca, não precisa lavar a
bunda, não precisa ser santo. Para cumprimentar, não precisa ser amado, não
precisa ser corno, não precisa ser arrogante. Para cumprimentar, não precisa
vestir roupa de marca, não precisa estar sem, não precisa estar com. Para
cumprimentar, não precisa ser rico, não precisa ser pobre, não precisa ser de
classe alguma. Para cumprimentar, não precisa estar manso, não precisa estar
bravo, não precisa estar contente. Para cumprimentar, não precisa se machucar,
não precisa se alegrar, não precisa se entregar. Para cumprimentar não precisa
ter medo, não precisa ignorar, não precisa estar bêbado. Para cumprimentar, não
precisa estar de chinelo, não precisa estar de All Star, não precisa estar de
Prada. Para cumprimentar, não precisa ser elegante, não precisa se mostrar o
prepotente, não precisa ser o melhor. Para cumprimentar, não precisa estar em
dia com o imposto de renda, não precisa ter viajado para a Europa, não precisa
falar a mesma língua. Basta olhar.
Viajo dentro de uma canção, acompanhado de uma boa xícara de café. Relembro uma infância. Tempos difíceis, mas divertidos. O coração na boca ao pular de um muro alto em uma caixa de areia. Tardes vadias em uma madeireira abandonada. Um quase tétano pego em uma lâmina. Um amigo lá para dar a mão. Início de noite em um pé de ameixa. O horário de verão era sempre comemorado com a empolgação cavalar. Um rádio a pilha. Uma sintonia qualquer. Um pôr-do-sol no interior. Os joelhos sujos, as canelas arranhadas. O All Star acabado. A conga destroçada. O riacho sem peixe, as pedras com rostos humanos, os pássaros soltos. O cachorro companheiro, as piadinhas inocentes, as revistas de catequese. As aulas cabuladas, os dias de futsal, as camisetas brancas limpas com Omo. O truque da moeda, a brincadeira do copo, o medo de ser pego. As meninas de Azaléia, os vestidos rodados, os ensaios na casa mal-assombrada. As noites de sábado. Videogame com Baconzitos. As conversas de madrugada, os sonhos adiado...