Acabo de comentar com a minha mãe: o amor é brega. Ela me retruca: Falou o mal amado! Quis contestar dizendo que isso era bom, não era algo depreciativo. Tentei argumentar falando que a fase de 1970, do Roberto Carlos, por exemplo, que é genial, é extremamente brega. Foi daquela época que surgiu uma das letras mais lindas do amor e da dor de corno: Detalhes. Sem falar que na década setentistas também tinha Odair José, Lindomar Castilho, Waldick Soriano, Márcio Greyck e o sempre eterno Nelson Gonçalves. Seriamente, ela, minha mãe, me olha novamente e vomita: mas é um mal amado mesmo.
Viajo dentro de uma canção, acompanhado de uma boa xícara de café. Relembro uma infância. Tempos difíceis, mas divertidos. O coração na boca ao pular de um muro alto em uma caixa de areia. Tardes vadias em uma madeireira abandonada. Um quase tétano pego em uma lâmina. Um amigo lá para dar a mão. Início de noite em um pé de ameixa. O horário de verão era sempre comemorado com a empolgação cavalar. Um rádio a pilha. Uma sintonia qualquer. Um pôr-do-sol no interior. Os joelhos sujos, as canelas arranhadas. O All Star acabado. A conga destroçada. O riacho sem peixe, as pedras com rostos humanos, os pássaros soltos. O cachorro companheiro, as piadinhas inocentes, as revistas de catequese. As aulas cabuladas, os dias de futsal, as camisetas brancas limpas com Omo. O truque da moeda, a brincadeira do copo, o medo de ser pego. As meninas de Azaléia, os vestidos rodados, os ensaios na casa mal-assombrada. As noites de sábado. Videogame com Baconzitos. As conversas de madrugada, os sonhos adiado...