Maria encarnada neste corpo. Todo sábado é dia de mandar as mariposas embora. Confesso, sem vergonha alguma, não sei cozinhar. Para recompensar, limpo um banheiro perfeitamente, de dar gosto ao Bombril. O som que acompanha essa sabatina é The Cure. Já gritei passando pano que meninos não choram, que na sexta-feira fico apaixonado e que às voltas naquele carrossel, eu beijei teu rosto e tua testa. Robert me dá razão enquanto dou um tempinho na limpeza e fico aqui escrevendo essas bobagens. Bom, vamos então para a lavanderia que a roupa branca me espera para um romance nada ideal.
Viajo dentro de uma canção, acompanhado de uma boa xícara de café. Relembro uma infância. Tempos difíceis, mas divertidos. O coração na boca ao pular de um muro alto em uma caixa de areia. Tardes vadias em uma madeireira abandonada. Um quase tétano pego em uma lâmina. Um amigo lá para dar a mão. Início de noite em um pé de ameixa. O horário de verão era sempre comemorado com a empolgação cavalar. Um rádio a pilha. Uma sintonia qualquer. Um pôr-do-sol no interior. Os joelhos sujos, as canelas arranhadas. O All Star acabado. A conga destroçada. O riacho sem peixe, as pedras com rostos humanos, os pássaros soltos. O cachorro companheiro, as piadinhas inocentes, as revistas de catequese. As aulas cabuladas, os dias de futsal, as camisetas brancas limpas com Omo. O truque da moeda, a brincadeira do copo, o medo de ser pego. As meninas de Azaléia, os vestidos rodados, os ensaios na casa mal-assombrada. As noites de sábado. Videogame com Baconzitos. As conversas de madrugada, os sonhos adiado...