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Drink

Entorpecido. Estou perdendo as chaves na fechadura. Aos poucos ela vai engolindo. É muito boa essa sensação. Mal agradecido. Não digo nem um obrigado pelo trato e sigo ao meu destino colorido.

A estrada é reta, mas o meu caminho é torto. Muitos tropeços acompanhados pela cinza fumaça que vaza da minha boca. O Johnny está comigo. Ele desce pela minha garganta calmamente. O céu estrelado rodopia com as poucas nuvens que insistem em atrapalhar. Mas eu nem ligo. Quem atrapalha pelo menos está fazendo alguma coisa.

E vou seguindo. "Se ela te fala assim, com tanto rodeios, é pra te seduzir e te ver buscando o sentido daquilo que você ouviria displicentemente. Se ela te fosse direta, você a rejeitaria". Já dizia o trecho daquela canção, daquela banda carioca que eu venero. E acabo.

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Acertos maus

Contato ausente Em pele quente Que arde dor De passado beijo Desfeito antes Recriado oposto Delicado gosto. Mentira exposta Na boca torta De beleza oca E fala morta Que acabou O amor incerto De brigas boas, Acertos maus, Vontades outras, Saudades poucas. Ainda há bem Outrora ruim Um desejo em mim De tragar o fim Engolindo gim.

Onde Moram os Moleques

Viajo dentro de uma canção, acompanhado de uma boa xícara de café. Relembro uma infância. Tempos difíceis, mas divertidos. O coração na boca ao pular de um muro alto em uma caixa de areia. Tardes vadias em uma madeireira abandonada. Um quase tétano pego em uma lâmina. Um amigo lá para dar a mão. Início de noite em um pé de ameixa. O horário de verão era sempre comemorado com a empolgação cavalar. Um rádio a pilha. Uma sintonia qualquer. Um pôr-do-sol no interior. Os joelhos sujos, as canelas arranhadas. O All Star acabado. A conga destroçada. O riacho sem peixe, as pedras com rostos humanos, os pássaros soltos. O cachorro companheiro, as piadinhas inocentes, as revistas de catequese. As aulas cabuladas, os dias de futsal, as camisetas brancas limpas com Omo. O truque da moeda, a brincadeira do copo, o medo de ser pego. As meninas de Azaléia, os vestidos rodados, os ensaios na casa mal-assombrada. As noites de sábado. Videogame com Baconzitos. As conversas de madrugada, os sonhos adiado...