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Anos

Aeroporto. 2008, talvez.

Eu estava prestes a desmaiar de êxtase. Não sei se isso acontece, sei lá. Nunca ouvi falar de alguém que apagou dessa forma. Meu corpo estava controlável, apesar da maldita vodca quente que bebi como se fosse o último líquido na Terra. Alguém teve a brilhante ideia de dar uma volta pela pista onde os aviões não pousavam mais. Possivelmente tenha sido eu.
O aeroporto desativado era a alegria da nossa turma nas noites quentes da cidade. O desmaio não veio, mas sim, outra coisa. Mesmo eu podendo utilizar isso como artifício de desculpa, de ter tomado a iniciativa precocemente alcoolizada, foi de caso pensado e eu sabia o que eu estava fazendo. Por isso beijei alguém.

Horas antes, estávamos apenas brincando, pequenas traquinagens de jovens pessoas que gostavam de curtir a vida juntos, independente do lugar. A luz da lua refletia no asfalto que servia de sofá para as nossas partidas de truco. Também servia de mesa para nossos copos, nossos salgadinhos da Elma Chips e cinzeiro para nossos cigarros. A noite estava absurdamente clara e esplêndida, como um cenário hollywoodiano de filmes farsescos. Os copos começavam a ficar vazios. Antes estavam preenchidos com gelo, vodca e Sprite. O gelo e o refrigerante sempre acabavam antes. Ficava a vodca que era bebida pura. Eu lembro que ela sempre amortecia meus lábios, mas nunca como aquele beijo causou.


Continua...

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