Despedida. Nunca é fácil. Fica um caroço desgraçado na garganta e umas coisas líquidas nos olhos. Não sei qual o momento mais difícil, o último abraço ou o carro partindo. Sei lá. Já foram tantas que deveria estar acostumado. Mas nunca estamos. Algumas são deveras horríveis, sobretudo àquelas quando alguém sai magoado, quando a despedida fica perdida, não finalizada como deveria. Se é que deveria. Essa foi uma. Em outras ocasiões, o tchau é feliz, mesmo que triste, algo bipolar. Porém, saber que a pessoa está buscando a sua lenda pessoal, o viver constante e tocando o foda-se da segurança, é muito lindo acompanhar, torcer e comemorar: vai lá guria, alguém está fazendo algo, pelo menos. E esse alguém é você!
Viajo dentro de uma canção, acompanhado de uma boa xícara de café. Relembro uma infância. Tempos difíceis, mas divertidos. O coração na boca ao pular de um muro alto em uma caixa de areia. Tardes vadias em uma madeireira abandonada. Um quase tétano pego em uma lâmina. Um amigo lá para dar a mão. Início de noite em um pé de ameixa. O horário de verão era sempre comemorado com a empolgação cavalar. Um rádio a pilha. Uma sintonia qualquer. Um pôr-do-sol no interior. Os joelhos sujos, as canelas arranhadas. O All Star acabado. A conga destroçada. O riacho sem peixe, as pedras com rostos humanos, os pássaros soltos. O cachorro companheiro, as piadinhas inocentes, as revistas de catequese. As aulas cabuladas, os dias de futsal, as camisetas brancas limpas com Omo. O truque da moeda, a brincadeira do copo, o medo de ser pego. As meninas de Azaléia, os vestidos rodados, os ensaios na casa mal-assombrada. As noites de sábado. Videogame com Baconzitos. As conversas de madrugada, os sonhos adiado...