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A Mãe da Batalha Afegã

Fecho os olhos e vejo tudo. A cicatriz em minhas mãos, o sangue na minha testa. Solicito mais um pouco, mas a piedade não se apresenta. Tento mais um pouco, nenhuma resposta obtenho. Espero o momento exato para acordar. Percebo que não estou dormindo. Pássaros no céu anunciam a despedida. Folhas praticam queda livre dos galhos. Portishead é a trilha sonora.
Continuo no mesmo lugar, os braços abertos, a esperança fechada. Percorro por caminhos meus desconhecidos enquanto salvadores sorriem conseqüências abstratas. Eles não sabem do que se trata, não conhecem a maldição, não sabem o que estão fazendo. Meu peito nu jorra aquilo que me era direito, aquilo que me era esquerdo, aquilo que me guiava. O rompimento enfim foi selado.
Desço do mundo, grito um profano, corto meu tímpano, cego meu rosto, reconstruo o ápice e forço a pureza. Tiram meu bem, escondem meu amar, catalizam a violência, arrancam meu filho e vencem minha glória. Bem que tentei, porém, sofri. Um tiro no escuro perdido veio de encontro ao meu corpo. Depois de tanto lutar, agora padeço. Sobreviva criança, a sua mãe agora descança.

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Contato ausente Em pele quente Que arde dor De passado beijo Desfeito antes Recriado oposto Delicado gosto. Mentira exposta Na boca torta De beleza oca E fala morta Que acabou O amor incerto De brigas boas, Acertos maus, Vontades outras, Saudades poucas. Ainda há bem Outrora ruim Um desejo em mim De tragar o fim Engolindo gim.

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