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Heartless Bastards

Queria não pensar, às vezes. Não relembrar momentos, não compartilhar angustias, não pensar futuros. Queria ser um inseto insignificante que rasteja pelos cantos obscuros repletos de doença e poeira. Seguir o viver pútrido da atmosfera e do ambiente aos quais foram destinados. Não passar em certas experiências que causam um câncer no pensamento mais claustrofóbico de prisão repugnante.
Queria não ter opção, às vezes. Viver por aí como um nômade quadrúpede à procura do não sei o quê, não sei o qual, não sei o como. Só caminhando e caçando o alimento. Não ter sentimentos, não entrar em contradições, não ser preso, não ser solto. Apenas seguir a ordem natural das coisas. Mas, como já disse aquele abastado lugar-comum: penso, logo existo. Antes, então, existisse em uma cabeça de fósforo pronta para o destino prólogo, acender a chama de um fogão, de um cigarro, de uma fogueira e apagar. O lado negativo da efemeridade de viver também tem a sua função. Menos o viver das moscas e dos cupins, as corcovas do zebu. Ave crucis. Queria também não pensar nisso, às vezes.
Queria não ter a criatividade noturna dos bêbados de ocasião. Queria não pensar em alternativas e possibilidades outras que poderiam ser tomadas antes, como que se fossem goles de destilado amargo. Queria a solidez não pensante dos girinos que são comidos pelos predadores naturais. Queria, outra vez, não pensar nisso, às vezes.
Queria não ter escrito essas frases. Às vezes. Porém, elas precisavam sair nesse momento. Ao contrário do início do texto, eu precisei pensar agora. Não queria, às vezes. As ocasiões acontecem e muitas têm o seu fim. Aguardo na angustia.

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